Município

Doutor Ricardo – “Terra do Filó” DSCF9336 - Copia

“TERRA DO FILÓ”
Filó: origina-se da palavra grega philos (amigo)
O Filó de Doutor Ricardo está resgatando e valorizando os costumes, religiosidade, as tradições, enfim, o legado e a originalidade deixado pelos imigrantes italianos no município. Os imigrantes chegaram e montaram seus acampamentos, desbravaram matos, edificaram casas, oficinas, moinhos, lavravam a terra e nela cultivaram seu alimento.

O filó é uma tradição que os antepassados trouxeram da terra mãe, a velha Itália. Desde o início da colonização de Doutor Ricardo era comum ver-se durante a semana os lampiões sendo levados pelas pessoas que iam fazer filó. Eram constantes as trocas de informações sobre a saúde, dos chás, o giusta ossi, a parteira, a benzedeira, vida familiar e da comunidade.

O filó era um momento de confraternização, oração, cantoria e partilha oferecida pela família que acolhia as visitas, regado a pinhão, batata doce, amendoim, pipoca e, claro, o bom vinho entre outras comidas. Nesses encontros cantavam, contavam os mais diversos causos e anedotas.

O filó fazia parte do dia-a-dia das famílias italianas. Costumavam reunirem-se à noite na casa dos vizinhos e parentes. Após o momento de religiosidade, os homens reuniam-se em um ambiente para jogar cartas, jogar “mora” beber vinho e tratar de assuntos como negócios e a vida cotidiana, geralmente na sala ou no porão.

As mulheres, geralmente, ficavam na cozinha com o mate em torno do fogão falando sobre a família, lida doméstica, culinária, “tricotando”, fazendo a “dressa” (trança de palha) que servia para confeccionar chapéus e a “sporta” (bolsa onde se carregava diversos objetos), além de colocar em dia os assuntos das comadres.

Por vezes, os adultos permaneciam juntos falando da organização da comunidade e a cantoria era comum no encontro. Enquanto isso as crianças brincavam em torno das casas e os jovens já aproveitavam o filó para os primeiros namoriscos.

A solidariedade e a alegria em partilhar tem sido um dos valores culturais da nossa gente. Desde quando alguém ficasse doente, os vizinhos se encarregavam dos mutirões para fazer ou colher a roça. O espírito de partilha era simbolizado pela “galina” que as comadres trocavam e, também, pela partilha dos alimentos que as crianças levavam aos vizinhos (sobretudo quando se matava o porco).

Por isso que no filó comunitário municipal, mantendo essas tradições e a originalidade, se pede a colaboração com um prato típico. O município de Doutor Ricardo, RS, tendo esta base histórica e cultural, vem há anos realizando o filó comunitário, realizando a 12ª edição em 2017.


O EVENTO – FILÓ

Na administração do prefeito Nilton da Silva Rolante, entre os anos de 2005 e 2012, foi criada a lei que autorizava o Calendário de Eventos do município, Lei Nº618/2005 de autoria do vereador Renato Tremea. No ano seguinte, em 2006, a Administração Municipal realizou o primeiro Filó de Doutor Ricardo, como forma de resgatar e valorizar o legado que os imigrantes italianos trouxeram e preservam até hoje.

No mandato do prefeito Alvimar Luiz Lisot, 2013 – 2016, foi ciada a lei que denomina oficialmente Doutor Ricardo “Terra do Filó”, a Lei Municipal Nº1580, de 16 de maio de 2014. Desde 2013, além da sede, os filós vêm acontecendo, também, em comunidades do interior do município, como forma de maior valorização das origens e locais onde aconteciam os filós, nas comunidades, nas casas das famílias.

O grupo de cantoria “Amicci del Filó” nasceu em 2006 por ocasião da realização do primeiro filó em Doutor Ricardo. O nome foi provisório na época e hoje o grupo está consolidado. Conta com 20 integrantes e é coordenado pelo professor Ermilo Berté. O “Amici del Filó” canta para manter vivas as raízes dos antepassados, animando missas em dialeto vêneto, filós, apresentações em festivais e encontros de cantoria italiana.

Em 2017, no primeiro ano da administração da prefeita Catea Maria Santin Borsatto Rolante e do vice-prefeito Alvaro Giacobbo, foi encaminhado o registro da marca junto ao INPI – Instituto Nacional de Propriedade Industrial – sob registro 912891432. A RPI – Revista da Propriedade Industrial – nº 2426, de 04/07/2017, publicou oficialmente o pedido de Registro da Marca “DOUTOR RICARDO “TERRA DO FILÓ”.

O Filó é uma tradição que vem se mantendo original no município e, a cada ano, o envolvimento da comunidade local e regional vem crescendo. O filó oportuniza recordações, momentos para reviver, resgatar e valorizar o folclore, as tradições, o trabalho, a religiosidade, a gastronomia, a cantoria, os costumes deixados pelos imigrantes à nossa gente. Hoje podemos nos orgulhar deste legado mantido muito vivo em Doutor Ricardo.

STIMANA TALIANA
No ano de 2017, uma iniciativa inédita, simples e muito original. De 13 a 20 de maio, durante a V Stimana Taliana, aconteceu a Roda de Conversa, que valorizou, ainda mais, o município de Doutor Ricardo. A novidade atingiu o objetivo de trazer presente como era a vida e como aconteciam os filós com os alunos das escolas EMEI Amiguinhos do Coração, EMEF Olavo Bilac e EEEM Doutor Ricardo. Os convidados especiais para esta “missão” foram vovôs e vovós que participaram das atividades nas escolas EMEI Amiguinhos do Coração, EMEF Olavo Bilac e EEEM Doutor Ricardo.

Os alunos conversaram sobre como era a vida em casa, as dificuldades, as mais diversas situações que enfrentaram na construção das famílias e o desenvolvimento do município até hoje. O filó, a religiosidade, as comidas, a forma de se vestirem, a bodega e como trocavam produtos, os animais, os calçados, a abertura de trilhos com facão e foices, as estradas, os animais, as doenças e as mortes causada pela demora no atendimento, o namoro, a forma de comunicação entre as famílias, a criatividade com os brinquedos, o colchão de palha, enfim, assuntos que mereceram a atenção dos alunos e professores que acompanharam.

Após a conversa, cada escola preparou uma apresentação cultural e apresentou para os alunos da escola e, após, foram apresentar nas outras escolas, valorizando o que foi produzido na escola, além de apresentarem-se em outras atividades promovidas pela Administração Municipal.

O MUNICÍPIO DE DOUTOR RICARDO
Doutor Ricardo é um município localizado na região Alta do Vale do Taquari, criado em 28 de dezembro de 1995 pela Lei Estadual Nº 10.639 e instalado em 1.º de janeiro de 1997. O município tornou-se independente, desmembrando-se de Encantado e Anta Gorda. Localiza-se a 169 km de Porto Alegre. Possui 2074 habitantes, segundo o IBGE.

Situado na Encosta Inferior do Nordeste no Estado do Rio Grande do Sul, na região do Vale do Taquari, banhado ao oeste pelo Arroio Jacaré a e ao leste pelo Rio Guaporé. Sua área é de 108 km²

A altitude média é de 481 metros, a latitude é de 29º 03´45”s e a longitude é de 51º 56´45” w.

O nome Doutor Ricardo tem origem no médico Ernesto RICARDO Heinzelmann, nascido na Alemanha em 1820. Nos anos de 1855/56, foi chefe do corpo médico que combateu a “Cólera Morbos”. Em reconhecimento, o Governo Imperial lhe conferiu a Medalha de Honra ao Mérito de “Cavalheiro Imperial da Ordem de Santa Rosa” no ano de 1867, doando-lhe, também, uma porção de terras no Rio Grande do Sul, entre os rios Guaporé e Forqueta. Em 1882 o Dr. Ricardo veio residir em Porto Alegre, onde faleceu em 1890.

Em 1939, Doutor Ricardo é elevado a categoria de distrito de Encantado. Nesta mesma data foi criada a paróquia São Caetano de Doutor Ricardo, contando com 66 residências na sede paroquial. Possuía casas de comércio, posto de combustível, Igreja Matriz com salão paroquial, grupo escolar, oficina mecânica, marcenaria, silo, clube de futebol, hotel, alfaiataria, etc.

A população é constituída, hoje, de várias etnias, mas basicamente de descendentes de imigrantes italianos que chegaram na localidade por volta de 1910. Os descendentes de italianos aqui chegados, vieram do interior de Bento Gonçalves, Garibaldi, Veranópolis, Caxias do Sul… sem título e sem escrituração da terra, mas com o direito de residir. Após estabelecidos, foram orientados de como escriturar a terra, indo a Passo Fundo à cavalo, em torno de 150 km, requerer a terra e receber a escritura. A doação que o governo fizera ao Dr. Ricardo tinha ca-ducado e o próprio governo ignorava, repassando as propriedades aos imigrantes.

A maioria da população, ainda, vive na zona rural, trabalhando no setor primário, cultivando produtos como o feijão, batata, fumo, aipim, amendoim, pipoca, milho, frutas, erva-mate entre outros. É destaque no município a produção de leite, aves, suínos, pecuária e o reflorestamento.

COSTUMES, TRADIÇÕES, RELIGIOSIDADE:
Os primeiros habitantes que colonizaram Doutor Ricardo aprenderam a usar a criatividade para a sobrevivência. A experiência que adquiriam, se tornava aliada para inovar nas adversidades.

PICADAS À FACÃO E FOICE
Os primeiros colonizadores andavam a pé, a cavalo ou de carroças. Abriam picadas no meio do mato com facão e foice e clareiras para a plantação e para se estabelecer. Quando alguém adoecia mais gravemente, era só esperar a morte, pois não havia recurso. Médico só depois de vários dias de sacrificadas caminhadas. As casas, construíam como podiam e, por vezes, eram ranchos de pau a pique, de pedaços de madeira rachadas com cunha de ferro e marreta de madeira. Poucos conseguiram serrar tábuas à mão. O telhado era, por vezes, de folha de coqueiro e, em geral, de tabuinhas lascadas com cunha especial de ferro.

A CASA
A casa, nos primeiros tempos, era levantada sobre altos cepos (colone). Subiam por escadas, que eram puxadas para cima, à noite, por me¬do dos animais selvagens. E mesmo, mais adiante, quando o perigo dos animais não existia mais, as casas continuaram altas do chão, formando o famoso porão, fechado a tábuas ou a taipa de pedras e que servia de adega para o salame, o queijo, o vinho, o trigo… O italiano sem casa de porão não está bem em casa. Os paióis eram fechados, na maioria, a tábuas lascadas ou serradas à mão. Também as estrebarias e os chiqueiros.

COMIDAS E BEBIDAS
Comer bem sempre foi uma característica dos imigrantes. Mesmo em condições precárias, o trabalho era para uma alimentação que suprisse as necessidades da família e, por vezes, dos vizinhos.

O italiano logo plantava o parreiral. O vinho combina com o italiano. Esmagavam a uva com os pés num recipiente especial, chamado mostarolla, onde ficava o bagaço e os grãos verdes. A casca e o masto caiam num recipiente chamado mastel(tina). A fermentação era feita na própria tina, de acordo com a capacidade do vasilhame disponível e o espaço do porão. As vezes se aproveitava a própria pipa (bota) para a fermentação. Do bagaço, ainda, se fabricava a grappa (graspa).

O chimarrão, mesmo não sendo conhecido na Itália, foi assumido como bebida e fazia parte do dia a dia das famílias, das reuniões e encontros de comunidade. Secava a erva mate no carijo ou no barbaquá. O manjolo oferecia a vantagem de ser gratuito e de servir tanto para socar a erva, como a cangica ou descascar o arroz.

O pão estava em todas as refeições. Cultivava o trigo e fazia a farinha. Preparava o fermento em casa, com várias fórmulas, com batatinha inglesa ralada, farinha de milho, etc. Era cozido em forno construído com barro e durava cerca de 8 dias. Sábado era o dia de fazer o pão, que era considerado sagrado, não podendo deixar em qualquer lugar, devendo ser bem guardado.

A polenta é prato típico na mesa do italiano. Por vezes, foi motivo de chacotas por ser comida do pobre e trabalhador. O colono italiano, que trabalha no pesado, sempre teve na polenta a comida base em, pelo menos, duas refeições: collazzione (café da manã) e cena (janta) e muitas vezes entrava no disnar (almoço) também. Além disso a polenta alimentava seus cachorros, gatos, e esfarelada, entrava no soro servido aos terneiros e aos leitões e, não raro, até as galinhas recebiam sua ração. A polenta era feita numa panela especial (parol, caglièra, ramina) de fundo redondo e normalmente de aço-guiza (preferido). Para fazer polenta, primeiro se punha água a ferver, sal, farinha de milho e a pazinha de madeira (mescola) para mexer. Fogo no ponto e quanto mais mexia, mais saborosa a polenta. Para cozinhar bem, devia ferver durante quarenta e cinco minu¬tos, devendo ser sempre mexida, para não queimar. Quando pronta, era despejada numa tábua especial, chamada taglier. As cascas, secas e duras, que ficavam grudadas no “parol” eram saboreadas com gosto, em especial pela criançada. A polenta é uma comida de alto teor energético, de fácil digestão. Não provoca congestão, asia, úlcera, colesterol ou alteração de sangue. Absorve e neutraliza as gorduras. Não azeda facilmente e pode acompanhar muitos pratos. Hoje há muita comercialização com a “polentina”. Mas a verdadeira polenta era a polenta suada do colono italiano.

QUEIJO
O queijo também acompanhava o colono italiano. Usavam o leite de vaca. Havia também quem fizesse uns queijinhos com leite de ovelha. Diziam que era saboroso e forte. Todos tinham uma ou mais vacas, sendo muito bem tratadas. Não podiam apanhar chuva: eram estabuladas em tempo. O fermento do queijo era feito em casa. O queijo exige cuidados especiais: limpeza, fermentação do leite no ponto e no calor certos, separação do soro do bolo, a compactação, na forma adequada, por um peso proporcional, o arejamento adequado, as lavagens, a salga, a ensolação, o lugar do amadurecimento… O queijo amadurece devagar e a pressa é inimiga da perfeição. Todos faziam e gostavam do queijo. Mais tarde, até se tornou uma boa fonte de renda.

SALAME
O salame não pode faltar no porão do italiano. Usavam carne de porco. Raramente acrescentavam carne de rês. Cuidavam de separar bem a carne da banha. Os ossos que sobravam do descarne eram salgados e aproveitados mais adiante. Cortavam a carne em tiras; moiam-na com uma máquina especial. Depois de ensacado, permanecia um ou dois dias de fumaça branda. Se emprestavam a máquina entre vizinhos, quando nem todos tinham. O salame era pendurado no porão (lugar fresco). Umas semanas depois estavam prontos e aguentavam sãos o ano todo.

COPA
Tinham arte espe¬cial exigida para fazer as famosas copas. Era o petisco mais sofisticado da colônia. Era da carne mais nobre do porco: o lombinho. A carne não era moída. Ficava inteira. Era só aberta e recebia tem¬peros especiais: sal, pimenta, canela… Os cortes no lombinho e a mistura dos temperos eram os principais segredos do sucesso. Também era defumada.

CHÁS, PARTEIRA E GIUSTA-OSSI
No início, devido as distâncias, as péssimas vias de comunicação, poucos recursos e as enormes dificuldades impostas, não haviam hospitais nem médicos próximos. Desenvolveu-se uma medicina doméstica baseada nos costumes e tradições trazidos da Itália e nas experiências que iam fazendo na nova realidade. Utilizavam plantas nativas para chás, compressas. Dependendo da doença havia uma planta para fazer o tratamento.
A parteira, o giusta-ossi e a benzedeira foram profissões importantes no atendimento à saúde. A parteira, com a prática acumulada pelos anos, era a pessoa indispensável em meio a famílias de numerosos filhos. Cabia à parteira orientar a futura mãe durante a gravidez e assisti-la durante o nascimento do filho. As técnicas foram passando de geração em geração.
Já uma figura que sobrevive ao tempo e à própria medicina formal é a O giusta-ossi é uma tradição que foi passando de pai para filho. Pessoas eminentemente práticas recompunham fraturas, curavam luxações e torções, usando apenas o tato e cuidados naturais.

AS REFEIÇÕES
As refeições dos colonos italianos se constituíam em três fundamentais: colazzione (café da manhã) disnar (almoço), e cena (janta).

Na colazzione, o desjejum pela manhã, a polenta era brustolada numa grade de ferro posta sobre as brasas. No início, as famílias não tinham a chapa nem o fogão. A polenta era brustolada no fogolaro: um fogo feito numa grande caixa de madeira cheia de terra, colocada no centro da cozinha, com muita fuligem e fumaça. Junto com a polenta, comiam ovos fritos na banha do porco que criavam, fortaia com salame ou queijo. Havia sempre pão, queijo, salame. As vezes tinha carne de porco requentada. Tomavam vinho e não café. Quando havia muito serviço na lavoura, o desjejum era levado na roça, levado pela mãe ou uma criança numa cesta bem condicionada.

Ao meio dia era o disnar, almoço. O prato principal era o sapão (menestra), feito de feijão-manteiga, bom de cozinhar e que se desmanchava todo quando fervido. No sopão entrava também o arroz, batata inglesa, massa (bigoli) e tempero (sfrido). O sfrido era preparado com requinte, em panela à parte, e era acrescentado à sopa quando ela estava quase pronta. Este tempero dava sabor à sopa. No sfrido entrava gordura (manteiga), cebolas em rodelas, um nadinha de carne, temperos verdes… Depois de fervido era coado e juntado à sopa. Na menestra não podia faltar o queijo duro ralado, que era acrescentado na hora da sopa ir à mesa. Este sopão era a base do disnar e normalmente era servido duas vezes (dois pratos). Além da menestra entrava no disnar o pão, o salame, o queijo, a verdura à vontade (havia na mesa sempre uma bacia grande, cheia). Às vezes entrava também carne ao molho. A bebida era o vinho. Em geral acrescentavam um pouco de água para matar a sede, sem exagerar no vinho. Depois do almoço vinha o chimarrão.

À noite, a janta, cena. Constava de polenta recém-feita, que era mais ou menos “dura”, despejada no taglier, coberta com uma toalha para não esfriar. Na hora de se servir era cortada com um fio de linha de costurar, em geral branco, que se segurava com as duas mãos e se fazia escorrer sob a polenta, rente ao taglier. Na espessura que se queria dar à fatia se puxava para cima, em ângulo reto, até sair o fio. À fatia de polenta era facilmente removida à mão ou com o auxílio de um talher. O queijo, o salame, o pão, a verdura em abundância temperada com vinagre de vinho, sal e um pouco de banha. Normalmente entrava também o “çharque” de porco, a carne lessa saborosa. Às vezes havia ver¬dura cozida: radici coti, verze cotte… Em algumas ocasiões se saboreava uma gos¬tosa caça: ave ou animal comestível, paca, cotia, tatu, veado, quati.

No domingo o disnar era diferente, festivo. Não vinha o sopão, mas a deliciosa sopa de galinha velha, com um recheado maravilhoso. No domingo vinha comida sofisticada. Havia variação. Às vezes macarronada, outras tagliadelle, bigoli sutti, gnochi, gratadei, sopa de agnolini, de capeletti, galina alessa, a rosto recheada, rizotto. O que dava sabor às iguarias era o tempero, buscado e produzido com requinte.

RELIGIOSIDADE
Todas as noites era rezado o terço em família. Em geral os pais “puxavam” o terço e os filhos acompanhavam. Nas famílias as orações da manhã e da noite eram feitas individualmente. Cada um rezava. O domingo era sagrado, com a missa de manhã e o terço pela tarde na comunidade. As famílias mantinham cavalos só para poderem ir à missa no domingo. Às vezes faziam até quarenta quilômetros, entre ida e volta, para participar da missa.

A capelinha que visitava as famílias acompanhava nos filós, onde se rezava o terço.

O capitel, geralmente construído em uma encruzilhada, tinha o santo da devoção da família ou das famílias da comunidade.

AS VISITAS
Os colonos imigrantes gostavam de se visitar e trocar ideias. A visita era sempre benvinda e nunca importunava. Tinha que entrar, sentar, conversar, experimentar algum petisco, sentir-se em casa era muito importante para a família visitada. Não olhavam o tempo. A pessoa valia mais que o tempo. É verdade que a visita também era sensata e sentia quando já estava sendo inoportuna. Seguiam o princípio de não deixar alegres, mas tristes porque a visita foi embora. De-viam despertar o desejo do retorno. As conversas eram demoradas e animadas. Não havia segredo entre eles. Tudo era transparente. O problema de um era o problema de todos.

Fonte: Documentos Prefeitura Municipal e Livro Pe. Giocondo Vaccaro